Importância do Figurino no Espetáculo

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Importância do Figurino no Espetáculo

By Janice Ghisleri

Alguns figurinos ou alguns elementos cênicos podem assumir papéis tão importantes quanto um ator dentro de um espetáculo, pois podem possuir peso e função tamanha que acabam falando por si só. Antes de considerar um grau de importância do figurino primeiro é preciso definir o que é. Chamamos Figurinos o traje usado por um ou mais personagens de uma produção artística, independente de sua linha (teatro, dança, cinema, musicais, etc.). Alguns profissionais se referem aos figurinos como traje, indumentária, vestuário, mas temos algumas diferenças básicas que diferem nos termos. Denominamos que indumentárias seriam todo o vestuário em relação a uma determinada época e povos. Vestuário, um conjunto de peças de roupas que se veste e o figurino seria o traje usado por um personagem criado. Consideramos como figurino tudo que o ator leva em cima de si, temos então as roupas e acessórios. Em relação aos acessórios classificamos a joalheria, chapelaria, calçados, luvas, sombrinhas, leques, lenços entre outros. Alguns acessórios já foram parte integrada e essencial na composição do look da vestimenta em épocas passadas, mas atualmente não são mais usadas, como luvas, sombrinhas, alguns estilos de chapéus, chales, etc, hoje estes somente são usados eventualmente em determinados lugares ou quando devemos mostrar figurinos de época. Como define Cunningham, “o figurino é um traje “mágico” – um traje que possibilita, por um tempo, o ator ser outra pessoa. Como a capa de Próspero, que concentrava seu poder sobrenatural sobre os ventos e os mares. A roupa do ator, ajuda a concentrar o poder da imaginação, expressão, emoção e movimento dentro da criação e projeção do caráter do espetáculo”.(Cunningham, 1984:01) O figurino é mais que uma simples veste, mais que uma roupa, pois ele possui uma carga, um depoimento, uma lista de mensagens implícitas visíveis e subliminares sobre todo o panorama do espetáculo e possui funções específicas dentro do contexto e perante o público, ora com grau maior ora menor. O figurino tem como duas funções básicas definir o personagem interpretado pelo ator e ajudar a estabelecer o tema, idéia e atmosfera da produção interpretada pelo diretor além de mais outras quatro não menos importantes. O figurino é parte importante do espetáculo, pois através dele se cria uma linguagem através das formas, cores, texturas, transmite a época, a situação econômica política e social, indica a região ou cultura, estilo do personagem, estação climática, aspecto psicológico, enfim os elementos necessários para passar ao espectador o sentido do espetáculo, devendo mostrar as relações entre todos os personagens. O Espaço é onde ele vive, local, região, cultura, se é um lugar específico, real ou é um lugar inventado, que saiu na imaginação do escritor. O figurino pode demonstrar claramente de que país de passa trama, por certas características folclóricas nas roupas de todos os países. Dependendo do local, vai-se usar determinado tipo de figurino característico do seu país, de sua cultura, possuindo trajes característicos alguns ainda usados até hoje, alguns ainda mais considerados folclóricos ainda usados somente em períodos festivos.
Ex.: Se virmos um homem usando o Kilt, sabemos que ele está na Escócia ou está em outro país, mas está representando este país. O mesmo ocorre com uma gueixa, um cowboy, etc. A época é em que determinado tempo da história o personagem está sendo interpretado, é muito importante ter uma data específica para poder se seguir uma linha de pesquisa. Podemos identificar se é de uma época anterior pela diferença nas formas dos trajes, e claramente pode-se identificar as estações do ano em que está ocorrendo a trama, pelo excesso de roupa ou falta dela. Ex.: Se virmos dois homens lutando com espadas e armaduras logo vemos que a historia se passa na Idade Média. Alguns trajes são mais fáceis de identificar que outros, para um conhecedor da história do vestuário, pode-se em alguns momentos identificar até o ano em que a trama está ocorrendo mesmo sem haver a declaração desta. O figurino pode determinar a passagem de tempo, assim como a maquiagem serve para ressaltar esta parte de extrema importância. Se virmos um personagem com roupas de verão e logo de repente ele está com roupas de invernos, sabemos que se passaram alguns meses, no decorrer do tempo, ou ainda pode-se ser por poucos anos, o envelhecimento através da maquiagem, já determina a passagem de vários anos. Com o clima também ambienta uma troca de ambiente, local, o personagem pode ter viajado de um país para outro. É necessário estabelecer qual a idade do personagem. A maior parte da responsabilidade é da roupa. Pois se mais recortada, mais decotada, mais ousada, véu na cabeça, comprimento da saia, etc.tipos de tecidos, acessórios. Neste caso a maquiagem age como um fator crucial nesta parte da caracterização e os penteados. No geral a hierarquia dos personagens, suas posição na sociedade, posição social define o básico da ação ou rico verso pobre, entidade verso um sujeito ou vice-versa Isso depende de uma hierarquia, da situação e tempo e cultura. Ex.: reis são ricos e usam roupas com tecidos pomposos, joalheria rica, serviçais, vestem roupas comuns e o povo veste outro tipo de roupa (todos têm peculiaridades e diferença nos traje e maior riqueza dos tecidos e qualidade de tecidos). Define-se seu estilo de vida, quanto ganha, que nível de riquezas possui, qual seu cargo, na profissão. Que função desempenha. Se for uma faxineira, não irá usar saltos altos, jóias e muito menos um tailleur. Um advogado que trabalha em uma grande empresa deve usar um termo bem cortado, com boa qualidade, uma boa gravata, um cabelo bem cortado e penteado. Claro que falando desta maneira parece uma grande descriminação, mas a realidade aqui também atinge a ilusão. E se não se souber fazer esta distinção e escolher os trajes adequados em relação idéia proposta em questão de status social teremos um grave erro de figurinos, podendo prejudicar todo o espetáculo, claro que temos situações onde o pobre se veste de rico e vice-versa, para interpretar uma cena camuflada, onde seu personagem passa por esta situação de metamorfose. Os personagens são identificados por outros personagens pelas roupas que usam, nós espectadores sabemos sua real identidade, mas o outro personagem não o sabe e o julga pelo tal. Como no filme “A Princesa e o Plebeu”, onde Andrey Hupburn vive a princesa e se camufla de plebéia para viver uma aventura como uma pessoa normal nas ruas de Roma com o jornalista protagonizado por Gregory Peck. A personalidade do personagem é de extrema importância para definirmos seu figurino.
Corte, cor, acessórios, qualquer aspecto das roupas pode passar a personalidade, suas atitudes comportamentais.
Ex.: Uma mulher charmosa, delicada, um punk, rebelde, um almofadinha, uma dondoca vestindo grifes, uma mulher moderna, liberada, uma carola de igreja. Uma pessoa introvertida ou extrovertida, alegre ou triste. Aqui cabe também o exemplo que mencionei acima, sobre a faxineira e o advogado. A faxineira mesmo usando roupas mais simples ou um uniforme, poderia sim usar roupas provocantes curtas ou decotadas, se assim fosse sua personagem uma mulher mais sexy e insinuante, e o advogado, poderia usar uma gravata horrorosa, um terno amassado ou completamente fora de moda, se seu personagem fosse um caricato ou hilário, e tivesse personalidade tímida ou retrô e abaixo, se não tivesse auto estima ou tivesse falta de senso. Segundo Rebecca Cunninghann, “uma peça existe porque um escritor tem uma ou mais idéias para expressar” . Sendo então que o tema ou o conceito do espetáculo proposto pode-se basear na história, pontos de vista, temas, incidentes e há varias linguagens para se contar uma história. O conceito que se segue para estudar o script são baseados na linguagem e na história pode ser interpretada e representada de várias maneiras. A disposição pode ser imposta pelo escritor e interpretada pelo diretor. O conceito é definido através de estilos, cores, formas, texturas.

    Estilo – se é realista ou estilizado. Cores – cores expressam sensações e podem definir um contexto com muitos significados. Volume – produções estilizadas pode ser utilizadas de formas exageradas ou pequenas demais para enfatizar uma cena. (mais propenso no teatro) Texturas – através das texturas para demonstrar algo sobre o personagem no relacionamento dele com os outros personagens, ou de determinados grupos. A textura também expõe ocasiões.

Se tivermos uma comédia pastelão, podemos definir uma linguagem caricata e exagerada para identificar e caracterizar os personagens, ou podemos dar um toque sombrio e melancólico nos personagens que interpretam um gênero dramático. Em algumas produções, o figurino não é considerado como uma das partes fundamentais de um espetáculo, o trabalho não é levado com a seriedade necessária, as prioridades são para outros departamentos da produção e pode transforma-se em um trabalho errôneo. Muitos espetáculos de palco e até muitos filmes, cometeram erros gravíssimos no estudo de época, ou na coerência das roupas com as cenas. Ponto este que deve ser salientado aqui, para podermos analisar com coerência antes de fazermos uma crítica negativa, primeiramente devemos analisar a proposta, pois onde podemos instigar um erro de construção de figurinos, podemos estar ignorando que há realmente a intenção de mostrar uma mistura que parece descabida. Muitos casos errôneos ocorrem e passam desapercebidos pela maioria dos espectadores pela falta de conhecimento dos trajes de épocas anteriores, o que poderia ser usado ou não, o que é releitura ou não, como pequenos detalhes como, por exemplo, um zíper, botões, tipos de tecidos ou forma das roupas que não se poderia estar usando em determinada época. Mas não podemos contar com a ignorância sobre o assunto dos nossos espectadores pois não o são, muitos não são exímios conhecedores de roupas de época ou linguagem vestual, mas percebem a falha na composição visual com certeza. O figurinista ou o diretor pode seguir uma intenção real de transgredir a harmonia, quebrar tabus, conceitos culturais, misturar estilos, mas muitas vezes o espectador não compreende a mensagem, ou claro, ocorre realmente um erro no trabalho, como misturar épocas, trajes incompatíveis com a situação, tecidos impróprios para determinadas roupas, excesso de acessórios ou falta deles, e muitos pontos que caracterizam um personagem. Um exemplo que posso citar: a Ópera “La Traviata” apresentada em Florianópolis em 2000, no Teatro do CIC, onde a princípio seria uma grande produção, envolvendo cantores de diversas localidades, cenários e figurinos trazidos do Teatro Municipal de São Paulo. A ópera tem como época de representação original, a data de 1850. Pela nova concepção do diretor, esta representação de La Traviata, seria transposta para o ano de 1920. Mas o que se viu foi uma produção sem pesquisa, mal elaborada, sem estudo de personagens, e muito menos, alguma roupa que demonstrasse a época em que o drama ocorria. As roupas eram de épocas diversas, a única personagem que usava um traje de 1920 era a ama de Violeta. O médico entrou em cena, sem traje adequado, ou sequer um objeto que o caracterizasse como sendo um doutor. O momento do baile foi decepcionante, de extremo mau gosto, pois em se tratando de uma festa de gala, as damas pareciam ser as empregadas, pois não havia vestidos luxuosos e muito menos algum brilho, sendo esta uma gafe terrível, pois a década de 20, foi um dos períodos onde se usavam muitos brilhos como canutilhos, bordados e jóias. A produção foi tão mal elaborada que os erros eram completamente visíveis até aos mais leigos, o que foi uma pena, sendo que as pessoas saíram do teatro decepcionadas, e os cantores acabaram sendo prejudicados. Referindo-se à produção dos figurinos.
O diretor Harold Clurman discorda da veracidade dos elementos visuais, segundo ele maquiagens exageradas, alguns tipos de vestimentas, roubam a atuação do autor, deixa claro demais que o que o público está vendo é uma representação. Ele achava que veracidade nas roupas históricas era desnecessário, para ele o mais importante é a relevância dramática e não a coerência histórica, a atuação, ênfase textual e expressão corporal são o mais importante. Clurman claramente tinha em mente que ao vestir um traje de época, era mais propício ‘a um baile a fantasia. Mas nem todos pensam assim, graças a Deus. Sabemos que o figurino é um dos elementos visuais e estes todos estão relacionados entre si então salientamos aqui o figurino em relação aos outros elementos cênicos, em grau de importância semelhantes, um não se sustenta sem o outro e um pode prejudicar o outro. Sendo então que o espaço emoldura o personagem, e o figurino enquanto elemento visual estabelece um essencial elo de significação entre o personagem e o contexto do espetáculo. Sendo que o mais importante é a completa integração entre o ator, figurino, cenário, e a luz, pois nestes estão concentrados os elementos visuais. Este trabalho deve ser feito num todo no campo da cenografia, pois o espetáculo é o resultado de um trabalho em conjunto. Cenografia é a arte de projetar e dirigir a execução de cenários para teatro, balé, ópera, cinema e televisão. Seu campo de criação e trabalho compreende, além do cenário propriamente dito, todos os elementos plásticos que compõem o espetáculo: figurinos, adereços, iluminação e maquinaria de palco. Dias defende o conceito de cenografia e cita “A cenografia é tudo o que é registrado em cena, e não se pode separar cenário, figurino, adereços, iluminação ou até mesmo a marcação de cena, isto é, a movimentação dos atores, porque todos estes elementos, estabelecem fluxos, massas, volumes, num determinado espaço”.( DIAS IN:SESC, 1995:23) A iluminação é de extrema importância em um espetáculo, pois através dela se cria funções de hora, lugar, estação climática, clima de tensão ou euforia na cena, cabendo ao diretor encontrar seus momentos. Em relação ao figurino e a iluminação, é que esta pode alterar os tons da roupa, realçar seus brilhos ou ofuscá-la, não somente dos trajes, mas também dos acessórios, deve-se ter cuidado e planejamento com o iluminador, para que o figurino, não seja prejudicado. Se no espetáculo houver efeitos extensivos de luz, planejado anteriormente, o figurinista deve ser informado das cores e tipos de iluminação que serão utilizados, e fora isto, geralmente o iluminador prepara luz após cenário, figurinos e marcações estarem prontos. A iluminação ajuda a vaorizar o rsto, a amaquiagem, as cores das roupas, mas também ajudam a ocultar sinais, marcas no rosto. O figurinista que cuida da criação dos figurinos, os interpreta, idealiza, desenvolve a pesquisa, criação dos croquis, pode reelaborar figurinos já existentes, coordena a equipe de produção e organização do guarda-roupa. É responsável enfim, por toda e qualquer produção necessária, seja delegando funções a terceiros ou produzindo ele mesmo, dentro desta concepção de totalidade, é necessário que tenha noções de cenografia, teatro, expressão corporal, iluminação, noções de espaço, arte, além de como se criar um traje, como história do vestuário, desenvolvimento de croquis, desenho técnico, modelagem, conhecimento sobre tecidos, acessórios, costura, e onde pode encontrar materiais e pessoal especializado. Infelizmente muitos espetáculos pecam nestes cuidados e podemos ver bons trabalhos serem prejudicados ou infelizes nas suas produções por figurinos indevidos, errados ou desprovidos de estudo, que destoam, ou não correspondem à sua função. Ou simplesmente são dados como mera roupa que veste o ator. Mas que a coerência da beleza e globalidade visual impere e prevaleça para que nossos expectadores possam entrar na sala de exibição e só ver beleza e harmonia e ter certeza que a mensagem será passada.

    Bibliografia

  • CEBALLOS, Edgar. Princípios de Direccion Escenica. México: Grupo Editorial Gaceta, S.A, 1992.

  • CUNNINGHAM, Rebecca. The Magic Garnment. Principles of Costume Design. Nova York: Editora Congman, 1984.

  • ECO, Umberto. SIGURTÁ, Marino. ALBERONI, Francisco. DORFLES, Gillo. LOMAZZI, Giorgio. Psicologia do Vestir . 3a edição. Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

  • FERGUSSON, Francis. Evolução e Sentido do Teatro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964.

  • GIRARD, Gilles; OUELLET. O Universo do Teatro. Editora Livraria Almeida. Coimbra/Portugal, 1980.

  • MANTOVANI, Anna. Cenografia. São Paulo: Ática S.A., 1989.

  • MONTEIRO, Marianna. Noverre-Cartas sobre a Dança. São Paulo: Edusp, 1998.

  • NELMS Henning. Como Fazer Teatro. Rio de Janeiro : Letras e Artes, 1964.

  • PORTINARI, Maribel. História da Dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

  • RACINET, Albert. Histoire Du Costume. Slovênia: Bookking International, 1988.

  • ROSENFELD, Anatol. Prismas do Teatro. São Paulo: Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.ROUBINE, Jean-Jacques . A Linguagem da Encenação Teatral -1880-1980. São Paulo: Zahar Editores S.A., 1982.

  • SESC. Cenografia – Um novo Olhar. São Paulo: SESC. Pompéia, 1995.

  • SOTTO, Marilyn. The Art of Costume Design. Hollywood: Editad Fabian Dean/Published by Walter T. Fauster.s/d.

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